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Uma homenagem do Presidente da Fundação Mudes, Cleto de Assis, aos professores

Em 1948, eu tinha sete anos. E inaugurava uma nova fase de vida, com minha matrícula no primeiro ano do Curso Primário (hoje Ensino Fundamental), no Grupo Escolar Duque de Caxias, o principal do município de Mafra, ao norte de Santa Catarina. Não foi o meu encontro inicial com o ABC, pois minha mãe já havia tomado a iniciativa de me alfabetizar, dois anos antes, em razão de minha curiosidade, despertada pelas revistas que meus irmãos maiores levavam para nossa casa. Mas a escola, o uniforme escolar, a mochila onde carregava a cartilha, os cadernos e o penal (assim se chamava o estojo escolar para os lápis e a borracha) enchiam-me de orgulho naquele primeiro dia: eu seguia, triunfante, para o novo mundo do conhecimento. 

 

Lembro-me perfeitamente daquele acontecimento, quando nos reuniram no pátio central da escola, antes de nos encaminhar às respectivas salas. Calado e curioso, coloquei-me entre os estudantes noviços, ao lado de um garoto mais irrequieto, que logo puxou papo comigo. “Como você se chama? Eu sou o Honório”. Nascia minha primeira amizade escolar, que se estenderia até o curso ginasial. 

 

Além das tarefas escolares rotineiras, tomei ciência das festas ao longo do ano, em comemoração a alguma coisa importante, segundo ensinava a professora Enedina, a segunda que tive, depois de minha mãe. O Grupo Escolar mantinha uma horta, utilizada para ampliar a sopa escolar, servida às dez horas da manhã, e como laboratório de ensino, em tarefas extraclasse, para que tivéssemos a experiência de lidar com a terra, aprender a biologia das plantas e das minhocas – sempre sob olhar atento do Seu Juca, zelador da escola e hortelão-mor.  

 

Em abril, terceiro mês escolar, comemorávamos o dia da Árvore, com plantio de algumas espécies e delas cuidando, daí em diante. Em maio, eu tinha duas festas: no primeiro dia, comemorava-se o Dia do Trabalho, instituído por Getúlio Vargas, presidente da República durante os anos anteriores. E, no dia 9, meu próprio aniversário. Depois das férias de julho, vinha a preparação para a Semana da Pátria, que se estendia de 7 de setembro, dedicado à Independência do Brasil (com obrigação e direito de marchar ao som de tambores, pelas ruas centrais da cidade) ao dia 19, Dia da Bandeira. Aliás, ela era diariamente lembrada, a cada início de turno escolar, com seu hasteamento no mastro erguido à frente da escola. 

 

Naquele ano especialíssimo de 1948 comemoramos, pela primeira vez, no Sul do Mundo, uma data muito especial – o Dia do Professor, nascido em uma cabeça mais que especial, um ano antes, quando, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, a primeira deputada negra eleita em todo o Brasil, a professora Antonieta de Barros, conseguiu emplacar seu projeto de Lei que homenageava os transmissores do conhecimento. Não lembro se nos contaram que era a primeira vez que prestaríamos preitos a nossos mestres com um dia marcante, só para eles. Mas o mês de outubro passou a marcar uma de nossas principais festas, já que o professor, a professora, eram partes importantíssimas em nossas vidas nascentes e crescentes. Em minha cabeça ainda meio vazia de valores permanentes, eles eram amigos e segundos pais. Eram, depois de nossos progenitores, quem mais se preocupavam com nossa educação, com nossa formação cívica. Os que plantavam as sementinhas da cidadania, em um mundo que se alargava socialmente. Os que organizavam nossas festas, os nossos piqueniques e disseminavam o respeito mútuo, reunindo-nos, em uma mesma sala de aula, em um mesmo ambiente, os que tinham sapatos e os descalços; as crianças da cidade e as da zona rural; os que podiam pagar pelo uniforme e pelo material escolar e os que eram beneficiários da Caixa Escolar, mantida pelas famílias mais aquinhoadas. 

 

Por pouco não tive o prazer de conhecer pessoalmente a professora Antonieta. Cursei a primeira série do Curso Ginasial em Florianópolis, no Colégio Dias Velho – hoje Instituto Estadual de Educação – do qual ela fora diretora, até 1951, vindo a falecer em 1952, um ano antes de minha chegada à capital catarinense. Mas ela havia partido como celebridade educacional e exemplo de vitória social. Como cidadã absoluta. 

 

Por meio das festividades do Dia dos Professores, aprendi a admirar aquelas pessoas tão adultas quanto meus pais, mas que dividiam seu tempo de vida para ampliar os cuidados paternos e fraternos dirigidos ao nosso crescimento individual e social. Pessoas que nos distinguiam, elogiando qualidades que não sabíamos ter, que nos incentivavam a descobrir novos conhecimentos, a conhecer a literatura e a poesia, a quedarmo-nos espantados diante dos mistérios das ciências, ao mesmo tempo em que nos indicavam tempos mais seguros, ao final ainda longínquo da jornada escolar.  

 

Poderia tecer muitos outros predicados desses profissionais da sabedoria. Entretanto, prometi aos colaboradores de nossa Comunicação Social apenas meia lauda laudatória e cheguei a quase duas. Se o texto ficou grande para os padrões apressados da Internet, tenho a declarar que é bem menor que minha admiração e minha gratidão pelos muitos e bons mestres com quem tive a sorte de conviver, esses engenheiros que me auxiliaram a construir minha vida. 

 

Cleto de Assis, Presidente da Fundação Mudes. 

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